sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Botando o meu na reta

Vocês vão me obrigar a criar um cadastro no bolsa família e disputar no tapa uma casa no Minha Casa Minha Vida. Depois que mudei o viés do blog foram tantos os comentários e tão repletos de sinceridade que agora tô aqui, ferrado, tendo que estudar sobre a organização do Estado brasileiro, e só consigo pensar neles. É impressionante a convergência das situações, não só entre eles mas também com o meu cotidiano ao quadrado. Na boa, se sentássemos na mesa de um pé sujo e começássemos a falar iríamos passar mal de rir com as experiências de cada um. Só falta arrumar tempo, dinheiro e alguém pra ficar com as crianças, mas isso é detalhe rsrsr. E já que colocaram seus perrengues pra fora, sairei da posição de analista pra analisado também, nada mais justo. Como diria um amigo meu: "Cappelli, baixa a saia e desce do palco!". Mas não se enganem: se eu levar fumo no concurso vou fazer uma macumba tão grande, mas tão grande pra vocês, que a galera vai achar que já é a abertura das olimpíadas, nem adianta chorar.

Não se enganem comigo. Minha mulher diz que sou um santinho do pau oco, uma fraude, e ela tem seus motivos. Quando se escreve é muito mais fácil analisar com frieza as situações do que responder na hora do calor da discussão, né não? Ela quando lê fica raivosa, "nossa, quem lê isso aqui acha que você é um anjo, melhor pai do mundo" e sabemos que isso não é verdade, até porque não tenho isso como meta. E cá entre nós, quando morrer pretendo descer um andar ao invés de subir porque nunca fiz amigo bebendo leite e concordando com o que digo. Pelo contrário, até desconfio.

No entanto gosto de depurar minhas ações depois, de refletir sobre os fatos e de tentar compreender alguma coisa que me faça chegar à conclusão de que isso é passageiro, tem solução e vai melhorar. Que outra coisa nos resta além desta resignação libertadora? Não uma resignação de coitadinho, tipo "ai, sou coitadinho e sempre vou ser, ó vida, ó céus" mas sim uma propositiva, que amplie os horizontes e te faça perceber quais foram as circunstâncias que te fizeram chegar até ali e o que é possível mudar.

Enfim, ela não trabalha. Passa o dia com as crianças, leva de tarde pra creche e busca. Não temos carro, e ela faz o percurso que dura uns 20 minutos todo dia em um carrinho de gêmeos que, com cada um pesando por volta de 18kg, vocês devem imaginar o que é. Ela vai empurrando e gritando "ó o pesaaaado, ó o pesaaado" e ai de quem estiver pela frente. Se parar, pra engatar a 5ª de novo fica complicado. Os que estão pelo caminho todo dia já sabem e se afastam como se estivessem no trilho e o trem apitasse ao longe rsrsrsrsrsrs. Não se esqueçam das calçadas esburacadas, de uma pequena ladeira e do sol. Antes disso, acordou cedo, deu café da manhã pros dois, brincou, deu banho, deu almoço e arrumou os dois pra escola. No tempo em que se veste a camisa de um a outra tirou a meia. Você vai botar a meia o outro tirou o sapato e por aí vai. Chega da creche, vai brincar, vai dar lanche, vai brincar mais, vai dar banho, botar roupa e colocar pra dormir. 

Então você pergunta: "e onde você está, safadão?" Calma, tem explicação. Saio cedo pro trabalho e volto umas 19:30h, o que já me livra de muitas acusações. Chego e tá tudo na doideira, normalmente hora da janta ou do cocô deles pós refeição, uma mania esquisita de sempre fazerem cocô juntos. Um dia desses Thomaz tava no cantinho onde se aliviam e Sophia tinha saído. Ele gritou: "Sophiiiiiia, vem pra gente fazer nosso cocozinho" rsrsrss Diz aí? Bizarro, né não? Voltando. Tem vezes que abro a porta e sou recebido calorosamente com um "tão os dois de cocô, agora é contigo". Chego a me emocionar rsrsr. Ou então algo mais afetivo como "fica com os dois que tô apertada e preciso ir ao banheiro agooooora". Outra lágrima, é demais pro meu coração. A terceira possibilidade é: "fica com eles que agora eu que vou jantar". E nesse tempo nem o tênis eu tirei. Tá bom, é claro que nem sempre obedeço e rola já uma discussão, mas via de regra é isso.

Chega então a hora de dormir. Hora do leite caprichado no Mucilon pra cimentar o estômago e dormir feito pedra. Ela deita com eles e cansada, bagunçada, estressada e moída, por vezes dorme junto. Culpa dela? Claro que não, mas isso não me impede de ficar muuuuuuuito puto, a separação é logo ali, hora de varejar a aliança rsrsrrrs. Porra, me restou isso? Que merda, hein? Na maioria das vezes ela consegue sobreviver mas, como não fez nada durante o dia a não ser cuidar das crianças, usa seu tempo pra ver a Carminha, os e-mails e suas coisas que são deixadas pra depois em função da correria. Culpa dela? Claro que não, mas isso não me impede de ficar muuuuuuuito puto, a separação é logo ali, hora de varejar a aliança rsrsrrrs. Porra, me restou isso? Que merda, hein? Mas aí conseguimos deitar, juntos, e aí já começo a me animar, afinal é hora de aproveitar enquanto não ecoa o choro no outro quarto: "demorô, é hoje mané, é nóis na fita, Jerônimmmmooooooooooooooooooooooooo. Amor? amor?." Dou logo uma cutucada "tá dormindo, porra?" E ela "não, claro que não". Ela diz que tá esgotada, que depois nos enlaçamos e tal. Culpa dela? Claro que não, mas isso não me impede de ficar muuuuuuuito puto, a separação é logo ali, hora de varejar a aliança rsrsrrrs

Como bem disse a Tati Weiss em seu cometário, "onde arruma tempo pra fazer isso, cacete???". Sei não, Tati. Eu começo a esperniar e logo no início do meu escândalo, bem antes dos ataques mais pesados e das acusações mais brabas, ela já está nos braços de Morfeu, nem aí. E olha que nem exijo muito, pra mim dia sim dia não tá tranquilo rsrsrsrsrsr.

E então vem o dia seguinte. Ou acordo mais puto da vida ainda e fico uma semana sem falar com ela (o que já vi que não resolve nada, só piora, e ainda por cima ofereço uma desculpa de lambuja "nem fala comigo e já vem cheio de gracinha?") ou acordo como se nada tivesse acontecido, pois é preciso tentar de novo, opção que me tornei adepto e praticante. Sabe como é, sou brasileiro e não desisto nunca!!!!!

Minha conclusão é a mesma de 90% dos comentários aqui feitos: é foda! Se bem que nesse caso, nem tanto rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Me despedindo pra poder voltar

Na boa, tem vezes que a coisa fica tão clara, tão clara, que nos negamos a acreditar. Eu mermo, pra minha desgraça, já cansei de errar questão múltipla escolha de prova por achar que não podia ser tão fácil assim. Imaginava "ah, esse examinador tá de sacanagem comigo, querendo me ferrar, jogou essa isca pra ver se eu mordo" e procurava qualquer coisa idiota nas outras respostas pra que justificasse meu "x" certeiro. A simplicidade ali, brilhando, chamando "veeeeem, me marca, me arremata, sou eu que te quero, enfia essa caneta em mim e me rabisca todinha" e você lá, olhando pra cima e pra baixo, "não é possível, eu não sou idiota, esse cara não sabe que sou inteligente demais pra cair numa armadilha dessa?". Bem, o final geral já sabe: tu marca a porra da resposta errada e, ao chegar em casa e conferir o gabarito, se rasga todo, dá com a cabeça na mesa e começa a se martirizar. E o pior de tudo é que não dá mais nem pra se jogar pela varanda, porque a tela, que era pras crianças, agora serve pra você.

Depois da última postagem fiquei imaginando muitas coisas, possibilidades possíveis diante de comentários tão sinceros e, principalmente, sem respostas. Era exatamente isso que eu queria que aparecesse, a infinidade de angústias e dúvidas que nos faz humanos e nos permite o erro. Depois de ler alguns livros sobre gravidez, quando as crianças ainda estavam nadando em placenta esplêndida, e avaliando a sua utilização após o romper da aurora tive certeza de que o que existe em todos eles as mulheres já carregam na veia, no sangue, desde que o mundo é mundo. Pra mim, ele serve muito mais como um guia do que não é aconselhável que se faça, o que não quer dizer que em casos extremos não deva ser feito. São orientações gerais, informações técnicas, vendidas hoje como algo super moderno e que amanhã, na próxima edição, eles mostrarão que estas técnicas já estão superadas. Na boa, livro para grávidas devia existir só um, com os seguintes itens no índice: doenças e sintomas, vacinações, amamentação e alimentação. Depois disso, páginas em branco para serem preenchidas por cada uma pois, a partir daí, não existe regra.

Bem, tá na hora de dar sentido aos dois parágrafos anteriores, desconexos mas complementares. O que ficou claro pra mim é a tensão da vida moderna e a maternidade/paternidade. E algum tempo atrás eu já escutava sussurros disso nos comentários e nos outros blogs, mas achava que não era uma vereda que deveria desbravar. Era a tal da resposta certa que eu teimava eu não marcar. Este que vos fala tem tesão na escrita, no detalhe, na minúcia, no relato e debate das ideias. Me amarro em fazer estas análises que juntam sociologia, antropologia, história, psicologia, conversa de elevador, de bar e bom humor. Me parece que este blog tomará um caminho diferente, pulará da infância para a crise pós moderna dos relacionamentos e sua interferência no contexto familiar. Mermão, que loucura, hein? Acho que já tenho um projeto pro doutorado rsrsr. 

Enfim, passarei a abordar temas adultos, neuroses, dilemas, contradições e devaneios, sem nunca perder o viés da relação destes temas conosco, pais e mães. Não quero um troço careta, tipo esta catequese que existe quando o assunto é maternidade/paternidade, com perguntas e respostas prontas. Parece que gravaram 30 programas e repetem eles há 50 anos (Eu já falei pra vocês que esta é minha tese pro Globo Repórter?). Vou por um caminho mais punk, mais fundo, dedo na ferida mesmo, porque acredito que é assim que crescemos, tanto emocionalmente quanto intelectualmente. É na oposição que se faz a síntese. É a rebelião dos pais, sim, isso mesmo, porque nós também somos assunto e merecemos mais do que este gugu-dadá que nos é oferecido como material de reflexão.

Quem quiser sugerir temas/debates pode me mandar um imeioul: cappellettico@gmail.com

Pra fechar, deixo aqui uma canção do Tom Zé, que define o que farei daqui por diante, ao quadrado:

Tô 
Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Desperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar
Eu tô te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminado
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Suavemente prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar











quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Foram queimar o sutiã...

Liberté pra quê? rsrsr
Ééééééééééé minhas queridas, vai vendo. Eles estavam lá, aconchegados e seguros, com tempo de sobra para suprir durante o período adequado as necessidades vitamínicas de seu bacuri. Eles estavam na boa, no balanço, no descanso e aí o que vocês fizeram? Hein? Foram lá e tacaram fogo. Resolveram fazer a revolução, quebrar tudo, partir pro ataque, pro trabalho, pra presidência. Em polvorosa ensaiaram escondidas a coreografia do "Tá dominado, tá tudo dominaaaaado".

E eu adolescente, vagabundo de marca maior, devoto do ócio criativo, ficava olhando aquilo e pensando "essas mulé devem estar muito doidas. Pra quê isso? Tão em casa, na moral, cuidando da criançada, piriri, pororó..." É claro que não estava fazendo nesse momento considerações machistas, nada a ver. Eu só pensava no descanso mesmo, no papo pro ar, na neblina do quarto. Pra mim era mil vezes melhor ficar em casa do que sair todo dia pra trabalhar e se estressar com isso e com aquilo. Não foram poucas as vezes que bradei que ficava em casa tranquilo com meus filhos se minha mulher me sustentasse. É óbvio que com esta convicção muitas foram as que correram, mas outras malucas se aproximaram. Este espírito soteropolitano de ser acabou escurraçado com a notícia do nascimento das crianças. Mas que ainda hoje sinto uma preguiiiiiiça, ah, eu sinto rsrsrsrs

Enfim, me deixando de lado e colocando vocês de frente, é claro que ficar em casa não é tão tranquilo assim. A mulher que fica em casa com os filhos trabalha muitas vezes mais do que o maior workaholic que existe. Vai pra lá, vai pra cá, faz isso, faz aquilo, pá, pum, corre, ajeita e pronto. Em suma, a mulher em casa já trabalha bagarai (entenderam? Pense no palavrão) e aí faz o quê? Arruma um emprego. Aaaahhhh, minhas amigas, aí o caldo entorna. Ela trabalha fora e ainda precisa chegar em casa e fazer tudo aquilo que a consciência pesada dela por deixar o filho o dia inteiro na creche a obriga. O tempo que já era escasso, desaparece. Quase 70% do salário dela vai para pagar a creche integral. A criança chega 7 da matina na creche e volta 19:00h. As 21h tá dormindo. Estranho, não? 

Claro que é, e a mulher sabe disso. Ela entra em crise, se culpa, e tenta não brigar com o filho nas 3 horas que passa com ele, seria sacanagem. Tendo isso em vista fica mais permissiva e não exerce sua autoridade como deveria. Falem o que quiserem, mas a função biológica da mulher é ser mãe, é cuidar da cria, lambê-la e aconchegá-la. Eu disse biológica, não que ela só serve pra isso, olha lá. O desvio imposto pelo capitalismo, que a retira deste traçado no seu genoma, por mais que não seja consciente a deixa aflita. Ela foi pro mercado de trabalho, como se ela já não trabalhasse duro. Ela não tem mais tempo. Ela congela o leite porque o peito não dá. Ela não fica mais com os filhos. O marido virou um adereço. A cama virou uma tumba. As que não tem filhos não tem tempo pra ter filhos. Nem mesmo para tentar. 

As que não tem filhos, então...Chega aos 30 e ela entra em crise, quer procriar, o relógio biológico desperta e ela não quer ficar pra tia. É independente, tem seu trabalho, sua casa, seu carro, come onde quer e viaja o mundo. Mas não quer ficar pra tia, aí não. Acaba tendo um filho com um caboclo que ela sabe que não será o pai do seu filho por muito tempo. Ela não tem trabalho, não arruma namorado, tá difícil, sem perspectiva de melhorar de vida, de emprego, pra poder viajar e fazer tudo que ainda não fez. Conversa consigo mesma e diz "tá ficando velha, hein? Quando você vai procriar? Daqui a pouco fica mais arriscado". Dos 30 aos 40, minha gente, ou vai ou racha, é batata. Posso aqui dar uns 37 exemplos de conhecidas que passaram justamente por isso que vos falo.

É por isso que sempre agradeço aos deuses por ser homem. Ser mãe/mulher é muito complicado. Trabalhar sendo mãe, pior ainda. Trabalhar, sendo mãe e ainda ter que aturar um marido, viiiiiiiiiiiiiiixe maria. Trabalhar, sendo mãe, aturando o marido e ainda fazer unha, cabelo, depilar... tá maluco, só de pensar nisso já quase infarto. E aí, me volta na cabeça: quais foram as contribuições, de fato, que esta queima trouxe para a qualidade de vida da mãe/mulher? É claro que ela precisa trabalhar pra ajudar, que ela tem seus projetos, suas perspectivas, seus anseios, e tem o direito de ter tudo isso. O que procuro compreender é como se faz pra equalizar isso tudo com a necessidade/vontade de ser mãe sem que uma das duas ações fique comprometida? Será esta uma contradição insuperável do mundo moderno? 

E aí, minhas amigas? Como faz? E não me venham com coisas do tipo "ah, meu marido ajuda muito" ou "eu me supero e me dedico". Vamos pra realidade, pra vida como ela é. A vontade é chutar o balde? Do quê? Na boa, só de pensar no que vocês estão pensando entrei em crise.

Fui.

Ps: alô, Mamatraca, queria ver umas mães falando disso naqueles vídeos, hein? Camila, para de degustar este Cabernet e toca isso! rsrsrs


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Nota explicativa

O texto abaixo é uma brincadeira-provocação que fiz com a Anne Rammi que escreve no Super Duper. Clicando na Vannessa Rammirez vocês terão acesso ao que ela escreveu.

Tô explicando porque as vezes viajo achando que está claro o que eu quis fazer mas, na verdade, só eu - e olhe lá - entendi.

Bem, como vocês podem perceber, se estou tendo que explicar é porque não funcionou kkk.

Abraços ao quadrado!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Dr. Hanz Inza - Ensaio sobre o cativeiro

Dr Hanz Inza, 

"Sou casada, tenho 44 anos e dois filhos maravilhosos. Me dou muito bem com meu marido e acredito que tenho uma vida que muitos gostariam de ter, com harmonia e tempo para me dedicar a eles. O problema é que de uns tempos pra cá venho me sentindo presa, amarrada, acorrentada a convenções que me sufocam, me tirando muitas vezes o humor. O que será que está acontecendo comigo? Será que virei uma mulher anacrônica? De onde vem esta minha necessidade de libertação? Será que encontrarei meu lugar neste quebra-cabeça chamado mundo moderno? 

Vannessa Rammirez - Itaquaquecetuba - SP

Um dia Elvira acordou e refletiu sobre sua vida. Despertou na hora que o trabalho exigia. Tomou café com pão como todo mundo. Almoçou na hora permitida pela CLT. Foi embora na hora permitida pelo patrão. Chegou do trabalho e tomou o segundo banho.  Recebeu um SMS do trabalho mesmo fora do horário e teve que responder. Viu uma conta que vencia no dia e que ela tinha esquecido de pagar. Não tinha comida e ela pediu um japonês. Teve uma certeza: nada do que fizera respeitava seus anseios e suas vontades mais instintivas. Olhou pra grade da janela da sala e sentiu que elas avançavam em direção à sua alma, colocando seu ser em cativeiro. Como ela faria pra se sentir livre se todo ato que praticava parecia já pré-determinado por convenções da civilização? Existiria escapatória? Seria possível vislumbrar ainda um reduto, um lugarejo que seja onde o Laissez-faire, Laissez-Passer se efetivasse a cada segundo?

Quando nascemos assinamos nosso primeiro contrato, com as lágrimas do primeiro choro: o contrato social. Nas linhas miúdas estão os termos que aceitamos mesmo sem ler. Lá está escrito o que você pode ou não fazer de acordo com os costumes e cultura não qual você se encontra. E é justamente este compartilhamento de regras aceitas por todos que permite a existência da civilização como nós a conhecemos. Este é o preço que pagamos para que nossos instintos mais selvagens não se sobreponham ao que nos torna humanos e membros da humanidade. Eles, estes instintos acuados em nossa alma, são egoístas e individualistas, agem de forma mecânica, sem pensar nas consequências do ato para outrem. E isso nos difere frontalmente, de forma inequívoca, dos animais. Eles comem quando tem fome, nem que para isso tenham que estraçalhar um outro bichano menor que está ceiando. Eles mijam por aí quando estão apertados, fazem cocô em qualquer lugar, enfiam a porrada e matam quando seu território é ameaçado, matam e abandonam suas crias quando acham que devem,  e isso quando cuidam. Ah, trepam onde bem enteder. E o principal: não planejam seu futuro, já que sua existência é marcada pelo incessante saciar de suas necessidades instintivas. Elvira, não somos bichos.

Desfrutamos daquilo que eles nunca terão: o livre arbítrio. Temos escolhas e uma delas é a que te aflige: vivo este mundo de ilusão ou crio um próprio só pra mim? Esta grade, Elvira, que você vê com cada vez mais nitidez, se fortalece na medida em que você pensa nela. Você pode correr para os seus pais quando tem medo. Você pode comer a hora que quiser. Você pode ter seu filho de forma natural ou não, você pode dar mamadeira ou não, chupeta ou não, peito ou não, complemento ou não, você pode isso e tudo o que quiser. Basta dar uma banana pros burocratas que te fizeram assinar aquele maldito contrato e entrar no PROCON se dizendo lesada no seu direito de consumidora da vida que você escolheu. Alguns fizeram isso e foram pro manicômio. Outros viraram hippies, outros foram estudar física e alguns foram pra fogueira. Mas os maiores, os gênios da humanidade, os que estavam além do seu tempo, sempre souberam que estas grades só seguravam os que não deixavam sua imaginação fluir para além do horizonte da normalidade.

Termino com uma frase de meu primo, Nietzsche, que afirmava: "Nunca é alto o preço a se pagar por pertencer a si mesmo"

Pague este preço, Elvira, e estas grades que te incomodam se tornarão pontes.

E seus textos serão mais felizes e cheios de graça.

Dr. Hanz Inza é Parapsicólogo social e escreve sempre que quer provocar alguém.

E-mail para a coluna: naomevenhacomchurrumelas@hotdog.com















segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cuidado com a bolha, que a bolha te pega

Minhas queridas e meus camaradas, não adianta. Pode pular 127 ondas no ano-novo segurando 13 palmas brancas e baforando uma vela azul na boca, pode fazer retiro no Tibet com o Lama da hora, pode jejuar durante 15 meses se alimentando só de luz, pode fazer promessa pra São Longuinho, pode ir a pé pra Meca, enfim, pode apelar pra tudo que você quiser, não adianta: seu filho vai fazer merda. Tinha uma amiga minha que sempre falava um negócio (como é mulher me livra da pecha de machista) quando queria dizer que algo era inexorável, que nada poderia deter aquela força cuspida das entranhas de um vulcão corporal. Dizia ela, preocupada com os calores da juventude de sua filha com então 16 anos: "não tem jeito: água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer transar, ninguém segura!" Falava isso porque sentia que a filha estava prestes a praticar o ato e, diante da resignação de que um dia isso aconteceria de qualquer jeito, ela estava conversando sobre o assunto ao invés de reprimir.

Vejam o que aconteceu com os padres. Na boa, aqui pra nós, se o cara tivesse convicção de verdade, se tivesse Jesus tatuado no coração, se se sentisse ungido pelas graças do altíssimo, se tivesse de fato escutado as trombetas dos Arcanjos na porta do Paraíso, se tivesse visto a Virgem que surgiu na sua janela após a empregada passar um limpa vidro lhe balbuciar algo, ele não precisaria ficar enclausurado. Porque cargas d'água alguém que é escolhido por Deus para fazer o bem tem a necessidade de ficar isolado na torre eclesiástica se as mazelas do mundo estão todas do lado de fora? É justamente por causa disso, dessa prisão das vontades, que eles acabam por aí dançando Monnwalker. Uma hora o corpo explode, a vontade inunda e o desejo transborda, não tem jeito. A bolha quando estoura vai pra tudo quanto é canto, praticamente uma teoria do caos onde sua ação não vale de nada. E aí, meu caro, perdeu, já era, baubau. 

A proteção dedicada aos nossos filhos deve ter limites. Protegê-lo das mazelas reais que enfrentamos criará um ser humano indiferente e, pior, acrítico em relação a isso. Se ele não se dá conta disso, das amarras e opressões que nos rodeiam e cerceiam, perdemos um cérebro na luta contra o que nos oprime. Se você é aquela mãe que fantasia seu filho de Lifebuoy no Carnaval pra ficar tranquila, cuidado: nosso corpo não sobrevive sem uma infinidade de parasitas que nele habita. Os erros, as derrotas, os dissabores, desamores, descaminhos, vermes, micoses e bichos do pé serão depois nossa identidade, nossa história pra contar, quer dizer, a deles. (Eu, calçando 44 e andando descalço o dia inteiro, era o rei do bicho de pé, que dá uma coceirinha maravilhosa, e da larva migrans, vulgo bicho geográfico).Ou você é daquelas que se reúne com suas amigas pra contar suas boas ações na época da juventude, tomando um bom copo de leite???? Não me subestime mulherrr!

Dia desses tavam falando do novo Banco Imobiliário como obra do capeta. Que brincar de polícia e ladrão faz mal ao caráter, que isso, que aquilo. Não bastasse as censuras na música, parece que agora estão se alastrando para outros campos da vida social. Porra, na boa, passei uns dez anos brincando de polícia e ladrão e nem por isso virei o Beira-Mar de Vila Isabel, fala sério. Propaganda em jogo? Meus deus do céu, parece que a propaganda surgiu ontem e só existe no jogo. Acham que a criança vai jogar o dado e sair dizendo igual a um zumbi: "vou abrir uma conta no Itaú e comprar um Fiat". Estamos aí pra isso: pra mostrar os excessos, pra incentivar a independência intelectual, pra explicar como estas coisas funcionam, pra que não deixem se levar pelos outros, pra que tenham identidade própria, opinião própria, pra que percebam que o mundo está em movimento e que existem várias disputas em jogo.

E ainda assim, mesmo dando uma ideia, trocando papos, aconselhando, ele vai fazer merda. Coisas que você nunca acreditaria que seu filhotinho-gostosinho-denguinho da mamãe faria. Eu mesmo fiz coisas que minha mãe vai morrer sem saber, já que contar antes poderia abreviar sua passagem pelo planeta. Vocês também, não? Acredito que sempre estamos buscando um meio termo, algo entre a bolha e o libera geral, ambos, no meu entender, prejudiciais. E é nessa busca que ganhamos mais importância porque a partir deste dia, teremos que colocar em prática, efetivamente, tudo aquilo que estamos falando, sob o risco de parecermos farsantes diante de nossos rebentos. E aí, minha querida, todos verão a opressão do politicamente correto se revelar. 

E que tristeza seria se elas não fizessem merda nenhuma. Deixaríamos de rir muito e eles de aprenderem coisas fundamentais que só aprendemos quando nos "desvirtuamos".

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

F 5


De vez em quando gosto de teoriar (caorizar era como falávamos na faculdade) sobre determinadas nuances que percebo neste universo blogueiro, que nada mais é que um reflexo das transformações que assolam nossos relacionamentos e modificam nossa forma de interação. Uma das coisas que mais me chamam a atenção é a necessidade que o ser humano hoje tem de estar sempre diante de uma novidade, de algo impactante, de uma notícia bombástica. A quantidade de informações é tamanha que o cara sempre acha que a história o deixou fora de algo, que ele está sendo discriminado pelos acontecimentos. E o problema é que sempre que ele abre a mão pra pegar algo, alguma coisa escapa. É esta a contradição moderna: são muitas as informações oferecidas e, na mesma proporção, as descartadas. 

E isso atinge todas as esferas da nossa vida. Esperar, hoje, tá quase virando uma palavra em desuso, uma praga, um vírus, o pior de todos da internet. Em tempos de respostas imediatas, de acessos de raiva por e-mails que não foram respondidos depois de 5 minutos de enviados, a necessidade de novidades passou a mover boa parte da humanidade. É a diferença entre o desejo e o impulso. No primeiro você planeja e cria as condições necessárias para alcançar o que quer. No segundo faz merda, porque não aguenta esperar. O impulso é o clic do mouse, é a velocidade de 15.000 mega da internet porque a de 10.000 já tava parecendo lenta. É a necessidade de novidade constante que perturba sua alma, soprando como faz o diabo no ouvido: coooooooooooooooompre Baton, cooooooooooooooooooompre Baton.

E é claro que este modelo chegaria até aqui. São muitas as pessoas que me falam que eu deveria escrever mais no blog, que falta texto atualizado, que eu deveria aparecer com mais frequência. Não nego que fico até lisonjeado com isso, pois de alguma maneira gostam dos textos e querem ler mais vezes coisas do tipo. Mas o problema é que minha vida não é um "cada mergulho um flash". Não tenho novidades para contar dia sim, dia não, quiçá semana sim, semana não. Situações engraçadas, ou ao menos que possam ser vistas pelo lado engraçado, muito menos. Não vejo este espaço aqui como algo fake, como um momento de interpretar algo e criar um conjunto aprazível para que aparecer. Este espaço é fruto da espontaneidade e é isso que torna ele legal. 

Se passar duas semanas brigado com minha mulher não escrevo. Se o fluzão vier numa sequência ruim, idem. Se tiver pilhas de leis para estudar para o próximo concurso que vou tentar, não escrevo. Hoje, por exemplo, estou tomando um tempo da CLT para escrever. Se no dia da prova errar um questão boba rogo uma praga em todas vocês, das brabas, tipo micose na unha do indicador ou sapinho no canto da boca.

Enfim, escrevo quando sinto que o que eu tenho pra falar é maneiro. Na terça fui com as crianças na padaria. Fiquei esperando 20 minutos o pão de queijo sair quentinho, isso sem falar que estava atrasado. Pão na mão, hora de ir pra casa. Sophia insiste em levar a sacolinha, sem problemas, já que eles carregam o pão direto pra casa. No meio do caminho ela dá uma balançada com a sacola e lança os coitados na direção do asfalto. Fico sem ação pois estou com os dois, um em cada mão. 

Pensei em acenar ou fazer algum gesto, mas era impossível. Rezo para nenhum carro passar. O primeiro passa e poupa os coitados, deixando eles entre as rodas. Mas o segundo é impiedoso, parece até que desviou só pra assassinar aquela família mineira indefesa. No meio da Ave Maria escuto aquele barulho de sacola estourando, e junto com ela aqueles coitados quentinhos, macios e tenros, que ganharam o mundo para perdê-lo em seguida. Olhar fixo no chão,vejo aquela massa branca se perder entre os pneus, salivando. Chego em casa 35 minutos depois de sair de mãos vazias e com esta história pra contar. Isso porque a padaria é na esquina. Mamãe pergunta o que aconteceu com o pão de queijo e Sophia manda: “Ele foi atropelado!”

Agora me diz: coisas deste tipo acontecem todo dia??? 

Enfim, se vocês acharem maneiro posso escrever diariamente sobre a dificuldade de tirar a caraca do canto da minha unha encravada enquanto as crianças querem ver a Clarilú e coisas afins, assunto não falta. Mas acredito, piamente, que a graça está na espera, na novidade, no “o que será que vem da próxima vez?” Minha intenção não é ter um diário, até porque mastigo abelha, não tomo mel. Acho que este blog só é responsa porque aparece quando realmente deve aparecer, ou seja, quando tenho a intuição e a vontade de escrever e me divirto com isso.

Abraços ao quadrado!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Perdeu, Playboy!

Respondendo ao chamado das trombetas do Minha Mãe que Disse (porque meu pai mandou ela dizer) segue um texto que, espero eu, a Flávia tenha coragem de publicar por lá. Sempre acho que posso dar uma derrapada, ser sarcástico demais ou fazer uma piada que seja considerada infame para uma blogosfera materna. Mas fiquem tranquilas (melhor assumir logo que só escrevo pra mulheres) que estou sempre me policiando, pra não ser mela cueca e pra não virar um Rafinha Bastos, meio termo tá tranquilo.

Dia dos pais. A data é requentada mas o acontecimento é revelador. Quem acompanha meus textos há algum tempo já sabe que é neste dia, ou melhor, na semana que antecede este dia, que as vendas de cueca quadruplicam. Não sei porque mas me parece que toda mulher acha que nós só temos cuecas rasgadas, surradas e com o elástico frouxo. Tá bom, algumas sim, as vezes um furinho aqui, outro acolá mas, pelo que me consta, nada que prejudique nossa performance. As mais críticas e insensíveis ainda atacam falando da freada de bicicleta, mas aí é golpe baixo, que nos permite revidar falando da calcinha que ela tem da tataravó. Enfim, na dúvida, passa na Renner e compra logo um pacote daquele com cinco. É importante que seja só um porque, caso contrário, corre o risco de restarem algumas no próximo dia dos pais e você não ter o que comprar. Tá bom, chega desse papo cueca.

Fui acordado pelas crianças e por minha digníssima esposa com presentes, vindos da creche e providenciados pela trupe. O primeiro, das mãos do Thomaz, uma linda, maravilhosa, exuberante caixa de sucrilhos transformada em um porta treco, com meu rosto desenhado na frente. Logo depois, Sophia, com um tecido e suas duas mão nele. Porta retratos feitos pelos dois também faziam parte do pacote, além da tradicional camisa branca com a foto e uns dizeres. Confesso que compreendo o valor simbólico da camisa, o que ela representa, mas sair com ela foi um exercício de esforço e superação. Achava que a qualquer momento cruzaria com o Beiçola ou com o Agostinho na pracinha. Agora, só em casa.

Mas o que me chamou mais a atenção foi o texto que recebi da creche, revelador em muitos aspectos da visão que ainda existe sobre o que é ser pai. Até agora estou em dúvida se foi pra me sacanear ou não. Tô achando que não, nunca atrasei nem um mês, eles não fariam isso comigo. Enfim, comecei a ler e quase chorei... de depressão. Imagino que ao tornar este texto público a taxa de natalidade despencaria no dia seguinte. Vamos por partes porque se for de uma vez só não vai  ter ponte pra todos pularem ao mesmo tempo.

"Ser Pai é, acima de tudo, não esperar recompensas". É claro que este não é o objetivo uno, que norteia a sua vida, mas pra mim todas as vitórias que eles conquistarem serão recompensas de nosso esforço e dedicação. Ou eu tô maluco? Será que vou pro céu?

"Ser Pai é contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado pra depois" Na boa, nessa parte cheguei a catar um Rupinol e um Rivotril que estão esquecidos lá na gaveta dos remédios, mas ponderei. Lembra da taxa de natalidade zero? Como o cara lê isso e sai animado pra brincar na pracinha???

"Ser Pai é colher  a vitória exatamente quando percebe que o filho já trilha seu caminho". Ué, mas o esquema não era não esperar recompensas???

Sei não, acho que eles estão me preparando pra facada quando as crianças mudarem do maternal pro Jardim I. "Ser Pai é pagar a creche dos dois em dia e rindo, sem esperar recompensas e sem atrasar. A única coisa que se pode esperar é a multa e a mora no dia seguinte ao vencimento"

Termino com uma dica para o próximo texto do dia dos Pais: mintam. Nós sabemos que é mentira, quem escreve sabe que é mentira, mas ao menos nos conforta imaginar que um dia assim será. Não é pra isso que serve o ano-novo?

Abraços ao quadrado!

terça-feira, 27 de março de 2012

Riponga X Modernosa

Dando um rolé por aí, vi lá no Mamatraca, site sangue bom da blogosfera materna, que tinha um texto falando das mães ripongas e das mais modernas. Como lá é um espaço sério, creio que não cabia uma avaliação mais real dos fatos, tendo em vista que alguma mãe se sentindo atacada poderia acionar os “anonymous” e acabar com a brincadeira. Imagina a cena: você clica no vídeo e tá a Carol Passuelo mostrando como surgiu o nome do seu blog. Aí aparece ela tomando um sangue de boi, o Cabernet Sauvignon da periferia, numa roda com amigos compartilhando uma perninha de grilo e dizendo: “vinhos e viagens, não preciso de mais nada”. Ou então outro, contando a verdade sobre a Anne, dizendo que ela teve mais um filho só porque estava ficando sem assunto? É o que eu digo, maluco: hoje, quem tem CpU, tem medo.
Mas eu, bicho solto e comprometido exclusivamente com a realidade dos fatos, traçarei aqui o verdadeiro perfil destas mães, um raio-x, melhor, um ultra-som da personalidade destas que, em lados opostos, comportam-se muitas vezes como israelenses e palestinos. Eis o perfil das ripongas e das modernosas, por eixo temático.
Vamos ter um filho?
A Riponga reflete. Pensa nos descaminhos do mundo, em Hiroshima e Nagasaki, no desmatamento da Amazônia e chega a pensar que seria mais uma pessoa pra sobrecarregar a já tão extenuada Mãe Gaya. Como ela tem sempre o “ou não”, acredita que tal como as estações, ela também deve seguir o rumo natural das coisas, gestando um filho como a terra gera um fruto, criando o rebento para no futuro se alistar no Greenpeace.
A modernosa faz conta. De quanto isso vai custar, de quando teria que tirar férias, de quantos parentes teria que recrutar e como isso iria abalar sua rotina. Liga pras suas amigas e recebe um “tá louca?” quando pede uma opinião. Após fazer uma planilha no Excel com tudo incluído até a festa de 15 anos ela reluta. Aí consulta sua carteira de identidade e vê que pela data de nascimento já tá com 35. Entra na internet e já olha as lojinhas de Miami.
Como vai nascer?
A riponga dá um rodopio de braços abertos, fecha os olhos e já imagina a cena claramente na sua frente. Ela no meio da mata, com todos os bichos e parentes em volta, o sol nascendo e os pássaros cantando. Ela se agarra a um jequitibá centenário assim que sente as primeiras contrações, pedindo força aos elementos da natureza. Ao lado, uma pequena piscina de água da cachoeira, onde ela trará ao mundo sua cria, pra que ele não sinta tanto a mudança de ambiente. (Isso sempre me intrigou. As mães que tem o filho em banheiras sob o argumento de que é melhor fazer esta transição. Uma hora eles terão que sair da água, não? Ou ao invés de um berço vão comprar um aquário???) A criança nasce e ela se sente como o macaquinho macumbeiro Rafiki do Rei Leão: levanta com os braços e apresenta como o mais novo ser do ecossistema.
A modernosa já leu tudo sobre cesariana e já orçou as possíveis cirurgias reparadoras, inclusive com o tempo necessário no SPA pra se livrar do peso a mais e do estresse. Pensa em inclusive sugerir uma dose extra de peridural, porque tem pavor de sentir alguma dor. Imagina uma sala extremamente equipada, com profissionais que trabalharam com celebridades e que saem na revista Caras. Seu sonho mesmo é que tudo fosse comandado pelo House. Pede pra sua mãe que está em um cruzeiro pela Europa para trazer lembrancinhas e, se possível, a Galinha Pintadinha cantando em inglês, The Chicken Painted. Começa pedir as amigas indicações sobre alguma Doula, que já possa acompanhá-la desde agora.

Tá ficando enorme rsrsr. Essa semana continuo... O Suspense faz parte.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Desabafo do coelhinho



Entro no feicibúqui e sou surpreendido por uma série de acusações e injúrias dirigidas ao coelhinho da páscoa, ser do bem e habitante de nossa devastada fauna. Uns dizem que não vão adquirir seus ovos porque andam muito caros, que compensa mais comprar barras de chocolate. Cochicham às escondidas, insinuando um caso raro de esquizofrenia animal onde o peludinho pensa que é galinha e que coloca ovos de ouro.

Outros vão mais além, acusando o comedor de cenouras de ter vendido seu corpo ao capitalismo e ter desvirtuado o verdadeiro significado da data.

Por fim, surgem os nutricionistas, acusando o coitado de colocar no mercado ovos transgênicos com um cacau modificado em laboratório para viciar os pequenos. Com tudo isso em vista, publico aqui uma mensagem que recebi do citado, se defendendo das acusações e colocando alguns pontos para reflexão:

Prezado Cappelli,

De minha toca, degustando uma cenoura, acompanho o que vem sendo dito sobre mim pelo meu tablet. Já até mandei um imeioul alertando o Papai Noel, dizendo pra ele tomar cuidado, que os tempos mudaram e que ele avise paras as renas que, se os pedidos diminuírem, poderá acontecer um corte de pessoal. Sugeri também que, pelo andar do trenó, é melhor que ele emagreça. Não ficarei espantado se dentro em breve surgir uma campanha contra seus quilos a mais, o que poderia ser um péssimo exemplo para crianças com cada vez mais problemas de obesidade. #fica a dica.

No meu caso, é com grande espanto que assisto ao pulular de opiniões, o que me faz mexer o bigode dez vezes mais que o de costume, parece até um tique. Uma corrente me acusa de estar doidão e achar que coloco ovos de ouro com preços acima do mercado. Ora, meu amigo, todos sabem que o produtor é o que menos lucra no mundo dos negócios. Digo e repito: eu boto o ovo. O Homem bota na prateleira.

E se acharem melhor eu posso também colocar um ovo em barra, tranqüilo. Assim resolvo o problema dos que acham que não devem pagar mais pelo formato. Se existe carne de soja, que não é carne, não vejo nada demais. “Olha a barra de Páscoa!” Por mim, tudo bem. É só anunciar que são ovos de Páscoa prensados e estamos resolvidos. Como vocês humanos vão explicar isso pros seus filhos aí já não é comigo. Vão mostrar um retângulo e o menino vai falar: ovo! Daí pra terapia é um pulo.

Aos mais inflamados, que acham que eu transformei uma data sagrada em festival profano, que utilizo meus ovos para incitar criancinhas indefesas ao consumismo desenfreado, sugiro comprar ovos, ovais ou em barras, mais em conta. Ou então esperem passar a data para se deleitar na promoção dos ovos em cacos, um outro formato possível. Digo e repito: eu boto o ovo. O Homem bota o preço.

Aos que acham que o chocolate só engorda e que as crianças não devem comê-lo neste dia, somente nos outros 364, tudo bem, eu entendo. Sugiro ovos mais nutritivos, ovos verdes sabor brócolis ou ovos orgânicos de pepino e agrião. Digo e repito: eu coloco o ovo. O Homem coloca a caloria.

No futuro já imagino as crianças ganhando ovos de isopor, reciclado, é claro, que ao serem abertos trarão a surpresa: barrinhas de cereais. Pronto: vai ficar barato, não vai engordar e os pais poderão desfrutar do imenso amor que os filhos darão após serem agraciados com este ovo de grego. Digo e repito: eu coloco o ovo. O Homem coloca a neura.

Perdão pelo desabafo prolongado, amigo, mas meu pelo já tava até caindo de estresse. É difícil levar a culpa dos males do mundo sozinho.

Abraço,

Ricochete.

domingo, 18 de março de 2012

Paródia machosférica

Vinícius casou muito e teve filhos. Mas esta seria a letra se tivesse gêmeos:


Era uma casa, muito arrumada
Paredes brancas, roupa passada

Eu via o jogo, na televisão
Gritava alto, um palavrão

Até podia, comer tranquilo
Ir ao banheiro, fazer aquilo

Até podia, ler um jornal
Sem procurar, Ninho Integral

Era mantida, sem muita força
Nasceram os gêmeos, que Deus me ouça.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Os 10 mandamentos do bom "namoro"

Você está cansada, seu marido está cansado, a casa tá cheia de brinquedo espalhado, a roupa por lavar, por passar, pela casa, pelo banheiro, a louça na pia, os filhos chorando, brincando, dançando, o telefone tocando, a tv falando, ninguém escutando, a fralda tá cheia, o hipoglós perdido, o cabelo por cortar, a unha por fazer, olheira. O dia é curto, o salário é curto, a paciência encurta, o cansaço aumenta, as contas aumentam, a voz aumenta. É hora de dormir, é hora de chorar, é hora de manha, de estresse. Dormiu. Se benze, agradece, respira, diz que assim não dá, faz o que quiser, mas não se esqueça que ainda é preciso "namorar". E aí, meus amigos e amigas, depois desta epopéia, ter estratégia e seguir um plano de ações bem elaborado é fundamental pra que se consiga êxito. 

Ofereço-lhes hoje os 10 mandamentos que vão mudar a sua vida. Se você tem mais de um filho pequeno e não possui empregada e/ou babá que durma em casa pegue lápis e papel: seus problemas acabaram!

1- NADA DE LIVROS
Pensem bem, meus amigos e amigas, se vocês se presentearem com um livro, a única hora pra ler vai ser quando? Quando? Isso mesmo. Aí na segunda linha  um ou outro já vai estar babando e babau "namoro". Até porque nessa altura do campeonato, você já entendeu que estes livros não servem pra nada, principalmente se você tiver gêmeos ou mais de um pequeno em casa.

2- PRELIMINAR É PROS FRACOS
Amigo(a)s, se você resolverem jogar a preliminar, aumentam os riscos do jogo principal ser interrompido pelo grito da galera. Além disso, se fosse muito, mas muito importante mesmo, não se chamaria preliminar. Deixe pra disputar esta partida quando o campo for neutro.

3- CAPRICHA NO MUCILON
Na hora de dormir, façam um leite com Mucilon reforçado, Multi Cereais de preferência. Como ele tem uma digestão mais demorada, vocês terão mais tempo pra "namorar". O ponto certo é quando você estiver mexendo e o leite não fizer mais redemoinho. Cuidado que depois disso ele vira um concreto, dá até pra construir uma casa.

4- DESLIGUE O COMPUTADOR
Se ele ficar ligado, já era. Um dos dois vai pra lá e o outro dorme. Como não queremos deletar o "namoro" é melhor evitar distrações.

5- DEIXA O KAMA SUTRA NO LIVRO
O tempo é curto e não comporta muita diversidade. Aposte na satisfação garantida sob o risco de não conseguir nem se levantar/desatarraxar/desembolar caso um filho chore. Aqui, sem tempo, menos é mais.

6- UM TAPINHA NÃO DÓI
Mas faz barulho. Evite pois isso causa uma reação, como toda ação, e pode descambar pra uma selvageria que vai acordar não só seus filhos, mas o prédio inteiro.

7- PONTO ESTRATÉGICO
Lá que a camisinha deve estar. Não dá pra sair procurando pelo escuro ou em outro lugar. Deve estar ao alcance da mão, malocada na fronha do travesseiro ou embaixo do lençol. O quê? Não usam? Cês são malucos, já dei minha contribuição pra humanidade (e pra UNIMED). E não se esqueçam que ela tomava injeções mensais de anticoncepcionais, só pra botar terror.

8- ÓLEO NO PARAFUSO
O que vocês querem é nheco-nheco e não nhec-nhec. Isso pode acordar as crianças.

9- CAMA LIBERADA
Certifique-se de que não existe nenhum brinquedo na cama ou nas redondezas que possa ser acionado com um esbarrão. Principalmente aqueles que não desligam de jeito nenhum, nem à paulada. Vocês lá namorando, o brinquedo falando "oi, me dá um abraço?" ou então um daqueles maldit, quer dizer, bonitos instrumentos musicais que basta um toque pra eles dispararem e emendarem dezessete músicas seguidas. Ninguém merece. Façam uma averiguação anterior e pronto, nada de parar pra espancar ou sufocar com o travesseiro um brinquedo.

10- NÃO É FINAL DE CAMPEONATO
Avisa ao maridão pra se comportar no final e faça uma ameaça: se eles acordarem, ele que vai levantar. Deixa pra urrar/gritar quando for gol do título.

Seguir estes passos não garante nada, mas aumentam as chances de vocês "namorarem" e acordarem no dia seguinte com disposição pra aguent, quer dizer, curtir tudo novamente com seus filhos rsrsrsrs.

terça-feira, 13 de março de 2012

D.O.P.A.M


Esse é Macho!

Queridas amigas, companheiras, acionistas majoritárias e demais membros do conselho, nós sabemos que só mulheres lêem este blog com, quem sabe, uma ou outra espichada de olho do maridão pra conferir se é isso mesmo. E isso me incomoda, não porque eu tenha a intenção de tê-los mais perto de mim, pelo contrário, sou espada, mas simplesmente porque a linguagem primitiva e tosca do hominídeo paterno pode contribuir de maneira espetacular para que a experiência da maternidade seja compreendida de fato.

Ainda que a mulherada esteja dominando o mundo e que as produções independentes sejam cada vez mais numerosas, nunca, nunquinha nessa vida, elas se tornarão mães sem que dependam de nós. Isso é fato e mostra pra muitas a fragilidade do conceito de independência. Vocês podem tentar de tudo, mostrar foto dele no bloco das piranhas caracterizado de viúva Porcina, vídeo dele recebendo dinheiro e guardando na cueca, cuspindo em mendigo, batendo em velhinha, o diabo, não importa: eles um dia irão querer saber quem é seu pai. Se vão gostar dele ou não, são outros quinhentos, mas a necessidade de saber a fábrica de onde nossas peças saíram é inerente ao ser humano e mais forte, pra desespero daquelas que tentaram de tudo para transformá-lo num crápula.

Após esta rápida introdução, que pode ser definida como uma mistura de linguagem coloquial e lição de moral, farei o que de fato iria fazer: começo hoje a organizar o D.O.P.A.M – Dicionário Oficial do Pai Macho que vai dar os verdadeiros significados daqueles termos estranhos ao mundo machosférico e que, por vezes, as mulheres utilizam como código para que vejam se estamos por dentro do que se passa com nossos filhos. Esta compilação, como todas vocês já sabem, serve somente aos líderes de manada, machos dominantes, que não comem mel, mastigam abelha, que não tomam leite, torcem a vaca, que não compram calabresa de jeito nenhum e, por fim, saem correndo quando avistam uma barata. Seguirei a ordem dos acontecimentos e avançarei com os termos conforme a idade. Peço que me enviem contribuições de termos, para que eu possa ressignificá-los de acordo com o DOPAM.

MECÔNIO: são as primeiras fezes do bebê. Uma espécie de graxa, sei lá, um sabão pastoso neutral, uma geleca. Depois você vai sentir saudades dela pois não tem cheiro.

COLOSTRO: Chopp sem colarinho. É uma saladinha antes de entrar na feijoada.

PEGADA: faz o seguinte: pega o desentupidor da pia, coloca no mamilo do seu marido, aperta e puxa. Ele vai entender.

FUNCHICÓRIA: cachaça em pó, uma espécie de maravilha curativa. Serve pra tudo, da cólica ao mau-olhado, da frieira ao verme.

BICO DE SILICONE: Se o peito é, o bico deve seguir o padrão sob o risco do nenê perder a pega.

NANA NENÊ: livro onde o capeta, junto com belzebu e o cramulhão, ensinam como fazer seu filho dormir.

Depois tem mais edições. Aguardo as sugestões.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Fra x Flu

Hoje vamos falar de um assunto extremamente delicado, de importância fundamental na vida da família e, quiçá, fator determinante nas relações futuras entre um pai e seus filhos: a escolha do seu time de coração. Muita gente fala que o importante é ter saúde, ser bem sucedido, amar ao próximo ou qualquer outra coisa que derive dos dez mandamentos. Pra mim, sinceramente, na boa, cá entre nós, se eles não torcerem pro mesmo time que eu não vale de nada.

Aí você fala: "Ih, ah lá, Cappelli tá mostrando seu lado fascista e ditatorial". Nossa, você é muito inteligente! Parabéns, eis aqui um tricolor fanático. Para um pai que gosta de futebol, o maior castigo do mundo, pior que viver com um Oxiúros até o suspiro final, é não poder torcer ao lado do seu filho, não ter o prazer de levá-lo ao estádio e de vibrar e chorar com as vitórias e derrotas. Eu já falei pra minha querida Giullianna que serei infeliz  o resto da vida se o Thomaz não for Fluminense. A Sophia pode ser até Bangu. Pronto: agora pode acrescentar ao fascista e ditatorial o termo machista. Vamos ver como vai ficar até o final do texto.

Meu querido sogro, gente boa toda vida, embaixador do Rio de Janeiro em Alagoas, fez a árvore genealógica da sua família com urubus representando cada um. São flamenguistas, todos eles, sem exceção. Não é a toa que todos os seus seis filhos são flamenguistas, uns mais doentes, outros menos mas, enfim, fazem parte da mulambada. Ele fez até um Power Point sobre o FRAmengo que leva uma semana pra você ver todos os slides. Tem até uma cerimônia pra hastear um bandeirão do FRA num mastro gigante na casa dele todo domingo, virou até atração turística. Já minha distinta e aristocrática família tem origem italiana, como denuncia meu nome, e desde o nascimento todos estamos sobre o manto tricolor. Minha mãe, acreditem se quiser, ia nos jogos conosco e não hora que a torcida entoava o canto que terminava com um estrondoso "VAI TOMÁ NO CÚ" ela me olhava de rabo de olho e cantava "VAI COMER ANGÚ". Íamos todos aos jogos, família unida, menos minha irmã ovelha negra que dizia que era Flamengo só pra afirmar sua identidade juvenil de contestadora.

No gol de Barriga do Renato Gaúcho em 1995, eu estava lá no Maraca. Assim que a bola estufou as redes eu me joguei das cadeiras pra extinta geral. Perdi meus chinelos e joguei minha camisa fora, enlouquecido. Voltei gritando sozinho pelas ruas só de bermuda, rouco, alucinado. Acho que ficaram com medo de me bater achando que era um maluco porque caminhei uns 30 minutos zoando todos os flamenguistas que encontrava pela frente. Minha singela esposa, pra não ficar atrás, já correu na direção da Mancha Verde pra tirar satisfação e quase agrediu um PM no meio da Torcida Jovem, porque ele esbarrou no meu amigo que mandei pra tomar conta dela. Lugar preferido dela no maraca? A chamada faixa de gaza: o corredor que fica entre a Raça e a Jovem que, jogo sim, jogo sim, saem na porrada.

Enfim, imaginem o problema. Meu argumento contra qualquer tentativa de meu sogro de assediar as crianças é inapelável: deixe-me fazer meu trabalho, do mesmo jeito que você fez o seu. Não me prive da felicidade que você sente vendo todos os seus filhos vestidos com este pano de chão. Caso contrário, nunca mais venho te visitar e ainda falo para as crianças que "vovô foi morar com papai do céu" e pronto, assunto encerrado. Sim, meus caros, o maior perigo é o avô, sempre. Na maioria dos casos são eles que levam nossos filhos pro lado negro da força. Tem também aquele tio, que deu pra eles camisas do Fra que, não sei como, sumiram lá de casa. Troço estranho...

Meu afilhado virou tricolor e eu não achei bom. Seu pai é Flamenguista e ficou muito triste com a escolha, acho que isso não se faz. Porra, mas quem mandou ir morar em laranjeiras? A mulher de outro amigo, tricolor também, virou pra ele e falou "você prefere escolher o nome ou o time do nosso filho"? Só uma mulher pode fazer uma pergunta dessa. Pode se chamar até Maicoul Francisco Craytton, dane-se, vai ganhar um apelido rápido, mas tricolor é pra vida toda.

Meus amigos, em sua maioria flamenguistas, compreendem isso. Sabem muito bem que não podem e não devem tentar falar gracinhas sobre o Fra lá em casa ou em qualquer outro lugar, sob o risco de até cortar relação, ou pior, esperar eles procriarem e infernizar a vida do moleque até ele virar tricolor. Eles sabem disso, tem medo e, além do mais, sabem o que é gritar gol pulando agarrado ao seu filho, pois fizeram  isso com seus pais. Time não se escolhe, a não ser que pra você o futebol seja apenas onze homens correndo atrás de uma bola.
O quê? Você acha que escolheu o seu ???

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Meu amigo escroto

Cada um coça do seu jeito
Hoje pela manhã li o texto da Juliana, que tem mais de 30, falando mal da arte milenar de coçar o saco. Na minha condição de macho alfa e líder de manada não podia deixar que essa análise preconceituosa e desprovida de respaldo científico ficasse sem uma resposta, na verdade um contraponto, necessário para a formação de opinião. Pra quem gosta de Marx, farei aqui o que ele chama de análise dialética: Ela fez a sua tese (afirmação ou situação inicialmente dada), eu farei a antítese (oposição à tese) e vocês façam a síntese (nova tese). O Velho barbudo levou uma vida e trocentas mil páginas pra explicar isso, mas se fôssemos fazer uma cola pra prova isso bastaria. Pelo início vocês já viram que vou entrar de sola.

Poderia eu tentar enquadrar esta prática dentro da história dos costumes, mostrando que esta ação é, na verdade, uma afirmação masculina, uma demostração social de sua potência viril e de sua capacidade latente de procriação. Como costume seria então parte de um sistema social próprio e inerente a determinado contexto específico, o mesmo que explica que era normal dar aquela escarrada grossa e carregada nas escarradeiras espalhadas pela residência, tão bem retratadas no clássico Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire.  Um outro clássico, A História da Vida Privada, está cheio de nojeiras que eram bem recebidas e que hoje nos causam ojeriza. Ainda assim, não seguirei este caminho.

Poderia eu argumentar que, utilizando a história social comparada, poderíamos encontrar no comportamento feminino práticas que obviamente não seriam parecidas, por questões anatômicas, mas que simbolicamente desempenhariam a mesma função. A mulher ao jogar seu cabelo incessantemente de uma lado para o outro, pode carregar na sua mão caspa, piolho, seborréia, um creme fedorento, formol, tinta ou qualquer outra intempérie que possa repousar no seu couro cabeludo. Ainda assim, abraça suas amigas, apertam a mão uma das outras e acham que isto é a coisa mais normal do mundo. E olha que colocam a mão diretamente na moléstia, sem proteção alguma como no nosso caso a bermuda e a cueca. Ainda assim, não seguirei este caminho.

E aqui vai a explicação para o que a mulher sente: ela projeta na ação de coçar o saco uma infinidade de doenças e pragas incrustadas inconscientemente na sua forma de pensar pela visão cristã do sexo, de ferramenta do diabo. Elas não sabem disso, mas projetam odores escabrosos, gosmas descabidas e outras esquisitices ainda que, contraditoriamente, se refestelem no dos seus maridos e namorados, muitas vezes praticando o sexo oral. Acredito que, na maioria dos casos citados, tais sacos coçados não sejam de mendigos que não tomam banho a trinta e cinco dias ou mesmo coabitem com DSTs alugando sua região baixa por alguns trocados. Se estamos tratando de gente limpa, sadia e com a higiene local em dia, não se justifica tamanha sensação de nojeira. 

Aí você fala: "ah, então o cara coça o saco e vem te apertar a mão e você nem liga?" Pera lá, sou espada e não fico manjando. Na verdade, não pensamos acerca disso e, portanto, isso não nos preocupa. A coçada é natural, inconsciente e, na maioria das vezes, serve para ajeitar nosso camarada que pode estar mal acomodado, seja por estar do lado que não costuma ficar, prendendo na cueca, agarrado em um pentelho ou coisa que o valha. O cara tá na pista. Fica com uma mulher. Dá um beijo. O clima esquenta. A barraca arma. É óbvio que vamos precisar acomodá-lo porque ele passou a ocupar um espaço que antes estava vazio. Agarrou no bolso da cueca ou se embolou nos pubianos esticando-os e causando uma dor terrível.  Vai então aquela ajeitada. Por fim, um conceito básico: se vale pra todo mundo, não vale pra ninguém, ou seja, isso pra nós não existe.

Não se iludam: todos os homens que vocês amaram, amam e amarão ao longo da vida, pais, avós, filhos,maridos, namorados seja lá quem for, coçaram, coçam e coçarão o saco. Incomodada ficava a sua avó, porque seu avô tenho certeza que não.