terça-feira, 9 de outubro de 2012

Esse tal do consumismo

Pois é, eu devia estar estudando agora direito processual do trabalho mas vocês teimam em me perturbar. E logo agora que tenho que redobrar todos os esforços, pois ontem chegou aquele envelope maravilhoso da creche, falando da nova mensalidade de 2013, da taxa de reserva de vaga, da compra da agenda, da taxa de material, coisa pouca vezes dois. Maldita hora que não aderi à (des)escolarização da Anne! Aliás, sei não, ando meio desconfiado. Ela escreve textos grandes e bem elaborados, com conteúdo, os filhos não vão pra escola, ou seja, ficam com ela, ela aderiu também ao movimento sem babá/empregada, o que pede mais tempo pra arrumar a casa. Isso sem falar o tempo de fazer a comida e dar banho. Não vou falar porque ainda não tenho provas, mas tenho certeza absoluta que tem algo estranho no ar. Pra mim, na boa, ela cria dois tamagotchis. Quando eu conseguir as fotos entrego lá no Divino e acabo com essa farsa. Tamo junto, Rita!

Dei uma zapeada aqui pelos textos e vi que o tal cartaz do dia livre do consumismo ganhou espaço com a chegada do dia das crianças. Eu, como bom Rodrigueano, sempre desconfio do que é unânime. A princípio eu discordo sem saber porque, mas com o objetivo fundamental de fazer com que todos que pensam da mesma forma se questionem e encontrem os motivos que os levaram até esta posição já que, com certeza, muitos deles não sabem. É o que chamo de argumento Xicó, do Auto da Compadecida: "Não sei, só sei que foi assim." Depois posso até concordar, sem problemas, mas que cada um saiba fundamentar e argumentar em defesa própria e não surfando nos argumentos alheios. Hora de confundir.

Primeiro, minhas amigas, o presente não é invenção do Tio Sam e muito menos fruto de uma sociedade consumista, capitalista. O presente existe desde que o mundo é mundo, mesmo antes da espécie humana começar a destruí-lo. Nem mesmo sua conotação de agrado, de troca, se modificou. Dar um presente não te faz um consumidor de imediato, ainda que você gaste algum dinheiro com ele. O que hoje pra você é valorado como dinheiro era, proporcionalmente, o esforço feito pelo caboclo pra caçar o papagaio e fazer um belo cocar pra sua esposa. A diferença é que o fruto do trabalho dele é direto e prático, enquanto que o fruto do seu trabalho é mediado pela troca de um papel com valor acordado socialmente. Enquanto o cacique vê o resultado do seu trabalho nós, desapropriados dos meios de produção, chegamos ao objeto desejado de forma indireta. No entanto, não se enganem: ambos os presentes são, antes de tudo, representação de um esforço para agradar alguém, uma vontade de transformar a batalha diária em bandeira branca, de ver que apesar de tudo, é possível extrair da exploração momentos inesquecíveis.

É claro que você pode dar um presente sem gastar um real, os sovinas também são de Deus rsrsrs, passar o dia junto, promover atividades lúdicas, coisa e tal, óbvio que isso é importante, mas eu nunca me esquecerei do dia que ganhei minha primeira bicicleta, minha primeira vara de pescar e, principalmente, meu Papa Tudo Trapalhão, que tinha Dedé, Mussum, Zacarias e Didi com mãozinhas pra engolir bolinhas que ficavam pululando em uma arena na frente. Cada criança controlava um personagem e era muito maneiro. E vou poupar vocês do surto quando ganhei o Atari. O que quero mostrar é que uma coisa não é incompatível com a outra, que elas podem conviver bem dentro de certa medida. Tenho uma implicância danada com extremismos porque, agindo dessa forma, você acaba demonizando o outro e, o que é mais perigoso, os outros, causando em muitos até uma certa arrogância ao olhar pro lado e dizer "nossa, você ainda compra presentes pro seu filho?" 

Como eu me diverti com isso. Tinha as caras do Dedé e do Zacarias pra encaixar se quisesse mudar de personagem. Tô emocionado...


Consumo não é sinônimo de compra, muito menos de consumismo, ele pode ser simbólico. Quem adota este valor esquece que as vezes é infinitamente pior consumir determinados tipos de ideologias e mentalidades do que comprar algo. É muito mais perigoso e destruidor para a formação do caráter das crianças este tipo de ameaça do que um patinete. É muito pior sua atitude diante de um mendigo esparramado no chão que você pula do que comprar uma roupa do Batman. O Consumo simbólico é mil vezes mais perverso do que o consumo financeiro.

Existe um cara chamado Marcel Mauss que escreveu um livro muito bom chamado “Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”. Em resumo, podemos compreender que toda forma de troca carrega um significado especial e muitas vezes não aceitar um presente pode ser uma atitude extremamente desrespeitosa e rude. Ela em si, esta troca, não é malvada nem corrosiva, pelo contrário, ela estabelece vínculos duradouros e fortalece os que já existem, sem significado econômico algum. O grande ensinamento é que cada ato desse, cada presente, feito por você ou comprado, não importa, carrega consigo uma intenção, que não deve ser renegada pelo simples fato de ter se utilizado de papel moeda para adquirí-lo. A troca, o presente, ensina ele, é fundamento de toda sociabilidade e comunicação humana, em sociedades capitalistas ou não. Realizar o sonho do seu filho depois de um bom tempo juntando dinheiro para comprar aquilo que ele tanto queria não te faz um crápula. 

Na verdade, estamos ensinando a ele perseverança, que nada se ganha sem trabalho, que o que ele quer não cai do céu, que as vezes temos que abrir mão de alguma coisa pra conseguir o que se quer e que, finalmente, o valor que damos ao que temos está ligado diretamente ao esforço dispendido para a sua conquista. 




18 comentários:

  1. Então... (juro que sempre preciso disfarçar aqui no trabalho... #rimuitoalto!)
    Concordo com muita coisa do seu texto, apesar de não escrever nem um decimo do que vc escreve.. e concordo não pq é mais facil, não...
    Acho super valida as campanhas disso e daquilo que rolam na blogsfera. Acho q nos faz pensar, nos faz sair do lugar comum e, principalmente, nos enquadrar (nisso, naquilo ou em lugar nenhum)
    Concordei muito com seu texto pq tbm tenho inúmeras lembranças dos dias das crianças mega divertidos na casa da minha vó.. com todos os primos.. onde só nos interessava essa ou aquela barbie que tinham acabado de lançar (mas que íamos ganhar a genérica do Paraguay) e não vejo nenhum bicho de sete cabeças em proporcionar o mesmo para minha filha e sobrinho...
    No dia das crianças sim... e tbm no dia 09 de novembro ou dia 13 de março... dias que não querem dizer nada.
    Em fim.. só mais um tema polêmico para uma rede onde quase nada faz barulho!

    Abçs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu não seria o mesmo sem meu papa Tudo Trapalhão kkkkkkkkkkkkkkk

      Excluir
  2. Capelli concordo com você... Maaaaaaaas...
    Isso não precisa ter um dia prédeterminado para acontecer. Posso ter vontade de dar um presente aos meus filhos no dia 7 de setembro, não?
    O que envolve esse "consumismo" é que os comerciantes aproveitam as datas que todo mundo compra e então acabam colocando preços abusivos. E mesmo assim podemos ter proporcionar a nossos filhos uma infância feliz..

    Abraços

    ResponderExcluir
  3. Carol, é claro. O que tentei discutir não é a data em que se dá o presente, mas o presente em si.

    Caso contrário, fugir da data festiva seria só uma estratégia pra dizer "eles não dizem quando eu devo comprar, eu que escolho!" rsrsrs

    Mas tudo bem, daqui a uns 15 anos seu filho vai lembrar todo orgulhoso "naquele Natal de 2018 mamãe me deu de presente um abraço bem apertado e uma rabanada" kkkkkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não precisa ser tão radical né... Terminei de ler seu comentário rindo litros....
      Um dia a gente acerta.... Ou não.. Vai saber...

      Beijos
      Carol

      Excluir
    2. Eu escrevendo ri muito também, pilha boa rsrsr

      Excluir
  4. Concordo plenamente com o que vc disse, tenho tb mtas lembranças boas de dia das crianças e natais onde eu esperava o ano inteiro pra ganhar um brinquedo ou a máquina de escrever rsrsrs, não devo privar meus filhos de terem lembranças boas dessas datas, dou presente sim e vou continuar dando até qnd eu puder...
    bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, acho que a galera devia é pensar no consumo consciente, este sim benéfico pra todos. O mais engraçado é que todos que escrevem isso ganharam seus mimos nestas datas e agoram não querem gastar um din din kkkk

      Excluir
  5. você é incrível, consegue levar os temas mais polêmicos daqui e dali de forma leve, divertida e totalmente sensata. obrigada !

    Abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu! Mas se concordar muito vou parar de escrever kkk

      Excluir
  6. Seus textos são excelentes, Capelli. Vc disse o que eu queria... da forma que eu queria saber dizer.

    Eu não sou contra dar presente, sou contra a banalização do ato de presentear. Se eu não dou brinquedos à minha filha durante o ano inteiro (pq eu sou mega quebrada financeiramente), então, dar-lhe um presente de aniversário não vira um problema, um "presente a mais".

    O que eu acho que anda acontecendo por aí é que a criançada ganha presente demais, demais, demais, demais.... o tempo inteiro! Sempre tem uma tia ou madrinha ou avô ou padrinho que chega com uma caixinha embrulhada, um presentinho para a criança. E daí, dar presente no dia das crianças nada mais é do que comprar a preços abusivos (como disse a Carol) o que vc poderia comprar em outra época...

    Eu não dou dar presente para a minha filha por alguns motivos, quais sejam:

    1) ela não tem nem 2 anos, não sabe o que é dia das crianças, não vai cobrar presente, não sentirá não ganhar presente
    2) eu não tenho dinheiro, logo economizo
    3) combinamos de ir passear com ela em algum lugar, fazer o dia dela, brincar com ela e tal... logo, esse será o presente

    Agora, de aniversário... é claro que eu sempre vou dar algo. Sempre vou comprar alguma coisa no aniversário dela, sempre, sempre, sempre. E gosto de ganhar no dia das mães, viu????? Apesar de ser "comercial", acho válido pelo ano inteiro de dedicação como mãe... hohoho

    beijo! e feliz dia das crianças para as crias!

    e boa sorte em todas as taxas das escolas... recebi tbm....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dani, é isso aí, simples assim.

      Aqui a avó das crianças faz isso,presentes até repetidos porque ela esquece que deu na semana passada, suponho que ela movimenta sozinha a economia da China. Mas como ela tem 86 anos e já está ficando de caso com o alemão Alzheimer, não adianta falar nada kkkkkkk

      Nós guradamos e damos aos poucos, ou então vamos nas lojas e trocamos. Isso quando ele duram mais de 10s depois de abertos kkkkkkkkkkk

      Excluir
  7. Cappelli, o que me fez continuar lendo o seu blog foi a sua sensatez e leveza em relacao a maternidade.ops! seria paternidade, sei la...
    Eu comecei a ler blogs sobre filhos no pos-parto.Naquela fase da mastite, da crianca desesperada de fome nas madrugadas, de quando bate a responsabilidade regada a uma ebulicao hormonal. E na minha busca por conforto online (kkkkkkk, soa meio estranho isso), eu encontrei tanto blog neura que so me fazia mal.Eu me perguntava onde esta o lado bom disso tudo pq sao tantas regras, causas e bandeiras. Ooooo povo chato! nao sao questionamentos, sao militancias enferrujadas. Quando alguem defende que tem o direito de dar presentes no momento que quiser, mas que se faca uma greve em relacao ao Dia das Criancas, esta tirando do outro o direito de achar que esse dia eh o apropriado. ou seja, se o "dia que eu quiser" for justo o dia 12 de outubro? Eh o mesmo tipo de pessoa que defende o parto humanizado, mas te aconselha a refrear seus sentimentos na hora de agradar seu filho e cria regras e teorias para tudo. O que adianta um parto natural, se tudo o que vem depois e controlado por tantas teorias "Xico".Complexo, pois parece que quanto mais buscamos informacao, menos exercitamos os nossos instintos!!
    Nao defendo a falta de informacao,mas nao se pode comprar qualquer ideia que se le por ai. E filho precisa do nosso feeling, da nossa observacao e do nosso carinho, e nao somente da vertente "tal" criada por um fulano qualquer.(com o doutorado que for)
    Eu entendo quando alguem defende menos consumismo, pois ha pessoas que tem somente o material a oferecer. Porem, acho um perigo quando isso vira campanha com passos a seguir e etc.
    Virou uma moda dizer que toda data comemorativa eh comercial. Parece que eh super cool no momento traumatizar as criancas com a falta de presentes.kkkkkk
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, Le, a teoria de hoje é a obsoleta de amanhã.
      O importante é saber aquilo que se encaixa na sua realidade e na sua trajetória, pra que as mudanças, caso sejam necessárias, ganhem sentido e significad.

      abs!

      Excluir
  8. Que bom ler um texto assim, viu?! Trata da polêmica sem ser agressivo e ainda por cima me fazendo dar altas risadas...é isso, aí! Não precisa haver extremismos...acho que tudo pode ser feito de maneira consciente...e, assim como você, tenho dia das crianças inesquecíveis...lembro até hoje da felicidade que foi abrir a caixa de presentes que estava em cima da minha cama e descobrir que os patins que eu sonhava há meses estava lá!!! Não há necessidade do consumismo desmedido. Mas, presentear faz parte...e acho tão bom! A mim, geraram incríveis lembranças. Não acho errado proporcionar esse mesmo sabor ao meu filho. Basta não haver exageros! Parabéns pelo texto!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Myriam,

      É isso. Consumo consciente é muito diferente de não consumir, até porque ninguém hoje vive sem consumir.

      abs!

      Excluir
  9. Nossa, concordei c/ tudo o que disse! Sou contra o consumismo desenfreado, mas o que me importa mesmo é mostrar o valor das coisas p/ meu filho, mostrar que é preciso merecer p/ ter, mostrar que $ não cai do céu e que ele tem que escolher uma coisa e abrir mão de outra, que ele deve doar os brinquedos que não usa +, pois tem crianças que nunca os teria se ele não doasse.
    Quanto a Anne, pelo que entendi, os pais dela que cuidam das crianças pra ela. O que mais me intrigou no texto dela sobre consumismo foi o fato dela não dar presentes aos filhos nem no aniversario deles, cada um é cada um né, mas cá entre nós, achei o cumulo do extremismo e fiquei c/ peninha das crianças. Minha familia era humilde na minha infância, não ganhava brinquedos c/ frequência não, coisas de marca então, nem sabia que existiam, mas num dia das crianças meu pai chegou em casa c/ um embrulho gigante (aos meus olhos de criança) e quando abri fiquei extasiada de felicidade, era o "meu bebe" da estrela, nunca vou me esquecer, me lembro de ter pensado no quanto meu pai teve que trabalhar pra me dar aquela boneca, seria isso prejudicial a uma criança?

    ResponderExcluir
  10. Fala, Girassol,

    É isso, entendo que o presente não é ruim, seja em que data especial (ou não) ele for dado. O perigo são os usos e abusos que se fazem deles...


    abs!

    ResponderExcluir